Antropologia e Educação |
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A
Antropologia na Educação: Abertura Antropológica sem Antropólogos
Paula
Mota Santos e Paulo Castro Seixas
Universidade
Fernando Pessoa Análise
do lugar da Antropologia no Sistema de Ensino português, questionando o
papel que a Antropologia e os antropólogos têm e podem vir a ter no
Ensino Básico e Secundário em Portugal, a partir da última reforma
educativa. Propõe-se a existência, nesta reforma, do paradoxo de uma
ideologia antropológica que exclui os antropólogos. Analisa-se a
figura do professor, licenciado em Antropologia, e do antropólogo de
escola, como lugares possíveis do uso social da Antropologia no meio
escolar. An
analysis of anthropology’s place in the Portuguese educational system
by questioning the role that anthropology and anthropologists have and
could have at both the middle and secondary education levels since the
last reform of the educational system.
The existence in this reform of a parodox is stated through the
identification of an anthropological ideology that excludes
anthropologists. The role of the teacher with a degree in anthropology,
and that of the school anthropologist are both analysed and presented as
possible uses of anthropology and anthropologists in the school system. A Antropologia no Ensino: contexto históricoFazer
um resumo da história da Antropologia no Sistema Educativo Português
é um trabalho relativamente complexo entre outras coisas porque a
Antropologia esconde, sob a mesma denominação, múltiplos sentidos.
Desde a Antropologia Etnológica à Antropologia Colonial e à
Antropologia Social e Cultural um longo caminho se percorreu. Não é
nossa intenção fazer uma análise da história da Antropologia
portuguesa, domínio em que outros mais habilitados que nós têm dado
excelentes contributos[1].
Pretendemos tão só percorrer num olhar rápido o lugar que a
Antropologia tem tido na Educação ao longo do tempo, para depois nos
determos mais demoradamente no questionamento do papel que a
Antropologia e os Antropólogos têm e podem vir a ter no Ensino Básico
e Secundário em Portugal a partir da última reforma educativa. A
primeira cátedra de Antropologia em Portugal foi criada em 1885 na
Faculdade de Filosofia Natural da Universidade de Coimbra. Denominava-se
Antropologia, Paleontologia Humana e Arqueologia Pré-histórica e sua
regência estava a cargo de Bernardino Machado (Areia e Rocha 1985: 13).
A leccionação de matérias antropológicas na Universidade de Coimbra
sempre esteve muito ligada ao Museu de História Natural, acabando este
por criar uma secção de Antropologia que funcionou também como apoio
ao ensino destas matérias. Em 1907 E. Tamagnini substitui Bernardino
Machado, passando o ensino da Antropologia em Coimbra a ser muito
marcado por uma divisão entre aquilo que se denominava na altura
Antropologia Zoológica e Antropologia Etnológica[2].
Em termos de cursos é de referir a criação em 1908 de um “Curso
Livre de Antropometria”[3] e em 1911 do “Curso Livre de
Etnografia Colonial”[4]. Este
último curso insere-se num contexto mais vasto e que é marcado pelas
relações que Portugal enquanto potência colonial estabeleceu com a
Etnologia, visando fundamentalmente a obtenção de um conhecimento das
populações das colónias. Já em 1906 tinha sido criada a Escola
Superior Colonial que, funcionando na dependência da Sociedade de
Geografia de Lisboa, tinha por finalidade a formação dos funcionários
coloniais. Em 1919 do curriculum do curso passam a fazer parte as
cadeiras de Etnologia Colonial e de Política Indígena. Esta Escola
Superior Colonial será posteriormente denominada Instituto Superior de
Estudos Ultramarinos (ISEU). Nos anos 60 o ISEU irá criar o Centro de
Estudos de Antropologia Cultural, que no entanto continuará a linha já
referenciada de uma Etnologia inserida numa potência colonial.[5] Em
1969 (DL 49475/69 de 17 de Dezembro) é criado o primeiro curso de
Antropologia em Portugal no Instituto Superior de Ciências Sociais e
Política Ultramarina – ISCSPU: Curso Complementar de Ciências
Antropológicas. Segundo Souta (1982: 54). “Neste curso apenas se
podiam matricular as pessoas habilitadas com cursos superiores de
Administração Ultramarina, Medicina, Biologia e Belas-Artes. No ano
seguinte o curso passou a designar-se Ciências Antropológicas e
Etnológicas e a possibilidade de matrícula foi alargado a qualquer
licenciado por Universidades portuguesas.”. Este curso deixou de
existir em 1975, quando o Instituto fechou.[6] No
presente existem cinco licenciaturas em Antropologia[7]
: Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas – ISCSP, antigo
ISCSPU, Lisboa (criada em 1980[8]),
Universidade Nova de Lisboa (criada em 1978), Instituto Superior de
Ciências do Trabalho e da Empresa – ISCTE, Lisboa (criada em 1982),
Universidade Fernando Pessoa, Porto (criado em 1990), Universidade de
Coimbra (criado em 1992). A nível de pós-graduação existem mestrados
em quatro instituições: ISCSP, ISCTE, Universidade Nova, Universidade
do Minho. Os
licenciados em Antropologia por estas instituições têm tido na
leccionação no Ensino Básico e Secundário uma das mais frequentes
saídas profissionais. De 1975/76 a 1991/92 a disciplina de Estudos
Sociais inserida no 1º Grupo disciplinar[9]
do então Ensino Preparatório podia ser leccionada pelos licenciados em
Antropologia. Ao nível curricular do Ensino Secundário (na altura
denominado Complementar) em 1979/80 foi criada a disciplina de
Antropologia Cultural no 10º ano de escolaridade. Esta disciplina era
optativa, funcionando para quem escolhia a formação vocacional de
Jornalismo e Turismo. O diminuto peso horário desta disciplina[10]
fazia com que as suas horas fossem preferencialmente utilizadas para
completar o horário de professores da escola em questão. Referindo
L. Souta: Os professores que leccionam Antropologia Cultural no 10º ano não têm, na sua maioria, formação específica em Antropologia, tendo sido na sua generalidade, os professores de Geografia encarregues de a leccionar – o que nem sempre fazem com gosto, mas apenas por necessidade de complemento de horário, pois o número de aulas de Antropologia não chega para formar um horário lectivo normal de 22 horas. (...) sendo neste momento a contratação de professores de Antropologia feita na qualidade de Técnicos Especiais, que terão que ficar ou com horário reduzido ou entrar em regime de acumulação (Souta 1982:52/53). A
candidatura a estes lugares era feita primeiro directamente junto do
Conselho Directivo da escola, passando posteriormente a ser feita em
termos de concurso a nível nacional. Ainda segundo Luís Souta,[11] durante o período em que
a candidatura a essas horas se fazia directamente junto da Escola,
dependeria muito da sensibilidade do Conselho Directivo desta se a
escolha feita quanto ao perfil do docente que iria leccionar a
disciplina de Antropologia, recaía num licenciado em Antropologia ou
noutro licenciado do grupo 10º A ou do 11º A[12].
Quando a distribuição dessas horas passou a ser feita por
mini-concurso a nível nacional, o critério de selecção deixou de ser
personalizado passando a funcionar os critérios ministeriais de
ordenação e selecção dos candidatos. De tudo isto resultava que
embora existisse no 10º ano a disciplina de Antropologia Cultural, rara
e excepcionalmente esta era leccionada por licenciados em Antropologia. Hoje
os licenciados em Antropologia pertencem ao Grupo 11º A e são
classificados como tendo apenas habilitações suficientes[13].
Neste grupo estão também os licenciados em Geografia classificados
como tendo habilitações próprias. A disciplina frequentemente alocada
aos licenciados em Antropologia é a de Geografia (7º, 9º 10ª e 11º
anos). Entretanto, a disciplina de Antropologia Cultural desapareceu com
a nova reforma curricular, tendo deixado de ser leccionada em 1993/94
quando aquela foi implementada no 10º ano de escolaridade. Assim,
aparentemente o uso social da Antropologia no Ensino Básico e
Secundário surge como que condenado, a disciplina desaparece e os
licenciados em Antropologia são empurrados para fora do Sistema
Educativo pela impossibilidade de profissionalização. Podemos, no
entanto, dizer que o uso social da Antropologia no Sistema Educativo
transcende a existência ou não da disciplina de Antropologia e a
possibilidade ou não de emprego para os licenciados em Antropologia. De
facto, parece-nos que as perspectivas antropológicas enquadram o
sistema educativo que emergiu da última reforma e enquadraram a
própria reforma, parecendo assim evidenciar-se que a Antropologia tem
um uso social na Educação formal em Portugal ao mesmo tempo que esta
exclui os Antropólogos. É este paradoxo que nos propomos analisar de
seguida. A Reforma Educativa: Abertura Antropológica na Ausência dos AntropólogosA
última Reforma Educativa levada a cabo em Portugal parece ter sido
enformada pelo paradoxo de uma ideologia antropológica que exclui os
antropólogos. Denominamos aqui ideologia antropológica a abertura da
Comunidade Educativa, traduzida na multiplicação dos seus agentes,
na pluralidade dos locais onde se pode dar o processo de
ensino-aprendizagem e na abrangência dos conteúdos concebidos como
educativamente relevantes. Esta abertura antropológica é visível a
vários níveis na Reforma Educativa que se empreendeu nos últimos 10
anos. Um dos mais evidentes exemplos dessa ideologia antropológica na
Reforma é o uso e abuso do conceito de cultura, quer nos documentos
elaborados no âmbito da Comissão da Reforma do Sistema Educativo, quer
mesmo na própria legislação que daí resultou. De facto, falou-se e
escreveu-se acerca da “escola cultural”, da “autonomia cultural da
escola”, da escola como “centro cultural da comunidade”, do
professor como um “professor cultural” ou até como um “antropagogo”,
etc. (Comissão de Reforma, 1987). A Antropologia serviu como fonte de
inspiração, de descoberta e de invenção, como motor de
intervenção, de abertura e de mudança. A Antropologia foi importada
pelos reformadores não como uma ciência mas como uma ideologia pronta
a usar que, de qualquer forma, nos parece globalmente positiva nas
intenções e no espírito que os documentos, a legislação e os
programas decorrentes da reforma expressam. No entanto, no quotidiano
escolar não se coloca em prática muitas das vezes as intenções dos
reformadores e uma das principais razões pelas quais a prática se
desvia das intenções resulta, quanto a nós, do facto de uma Reforma
que aparentemente assume uma ideologia antropológica não poder ser
feita na exclusão real daqueles que terão sido a sua fonte de
inspiração: os antropólogos. Esta
abertura antropológica da escola ao nível das intenções pode ser
vista no novo sistema de gestão e organização das escolas, nas novas
figuras educativas inventadas pela reforma tais como o Projecto
Educativo ou a Área-Escola ou ainda as Actividades de Complemento
Curricular e finalmente na própria reforma curricular, quer pelos novos
cursos e disciplinas que surgiram quer na restruturação curricular das
já existentes [14]. Analisaremos, em
particular, a reforma curricular e as novas figuras educativas como
oportunidades de abertura antropológica do processo educativo,
indicando ainda os constrangimentos que podemos encontrar na vida
escolar concreta àquela mesma abertura. Não pretendemos analisar
exaustivamente cada um dos aspectos referidos nem tal seria possível
num pequeno texto, pretendemos antes confrontá-los como exemplos de
abertura antropológica e evidenciar a nossa estranheza pelo facto
desta, apresentando-se como positiva, se tente fazer sem o recurso àqueles
que mais à vontade se devem encontrar para propiciarem que essa
abertura de facto aconteça e se mantenha: os antropólogos. Da nossa
leitura do ensino básico e secundário em Portugal, o antropólogo
poderia ser inserido de duas formas no campo escolar actual: 1. como
professor, licenciado em Antropologia e 2. como Antropólogo de escola.
Nas páginas seguintes analisaremos estas duas alternativas, a primeira
através da reforma curricular, a segunda através das novas figuras
educativas. Em ambas se analisará de que forma uma ideologia de
abertura antropológica se conjugou, paradoxalmente ou talvez não, com
a exclusão progressiva das oportunidades de emprego no nosso sistema
educativo para os antropólogos. 1-A
Reforma Curricular e o lugar do licenciado em Antropologia
A
reforma curricular evidencia, nos cursos técnicos, nas novas
disciplinas, assim como na restruturação das já existentes, uma
abertura antropológica da educação. Quanto aos cursos técnicos,
alguns há em que se incluem áreas de preocupação e intervenção da
Antropologia que actualmente se ensina e se pratica em Portugal: o Curso
Técnico de Animação Social, o Curso Tecnológico e o Curso Técnico
de Comunicação, assim como o Curso Técnico de Administração. Quanto
às novas disciplinas, o caso da de Desenvolvimento Pessoal e Social é
talvez o mais gritante de uma abertura antropológica, mas outras
poderiam ser referidas como a de Ciências Sociais e Formação Cívica
ou Homem e Ambiente-Componente Social – disciplinas do 3º ciclo do
ensino recorrente. No que se refere à restruturação das disciplinas
já existentes, se nos centrarmos nos programas de História e de
Geografia – aqueles que ao abordar as dimensões espaço e tempo mais
se aproximam das questões antropológicas – podemos ver que a
abertura antropológica foi evidente. Analisemos, então, cada um destes
casos. Relativamente
aos cursos técnicos e tecnológicos, focalizemo-nos no exemplo –
que consideramos positivo – do Curso Técnico de Animação Social do
ensino secundário recorrente. É evidente para qualquer antropólogo a
importância, num curso deste tipo, da análise e intervenção
antropológica e assim parecem ter pensado em parte os autores deste
curso, pois ele possibilita o acesso à licenciatura de Antropologia do
ISCTE (porquê só deste Instituto?) e os licenciados em Antropologia,
em paridade com os de Sociologia e Serviço Social, podem nele
leccionar. No entanto, algumas coisas deixam-nos espantados: será por
acaso que a disciplina de Animação do curso se chame Animação
Sociocultural e que o título do curso se apresente apenas como
Animação Social? E será também por acaso que não haja no curso
nenhuma disciplina de Antropologia e que sob o título de Sociologia se
leccione de facto um programa de Antropologia e Sociologia quanto aos
conteúdos? Parecem-nos dois acasos demasiadamente no mesmo sentido!
Poder-nos-ão responder que Antropólogos e Sociólogos estão em
paridade na leccionação dessa disciplina, segundo o perfil dos
docentes, mas estarão de facto quando a disciplina se define à partida
como Sociologia e quando não existe um grupo disciplinar de
Antropologia apesar de se prever um de Sociologia? Quanto
às novas disciplinas, utilizemos como exemplos dois casos muito
diferentes entre si: o caso da disciplina de Ciências Sociais e
Formação Cívica da formação geral do 3º ciclo do ensino
recorrente, e o caso de Desenvolvimento Pessoal e Social do Ensino
Básico e Secundário. Ciências Sociais e Formação Cívica é uma
daquelas disciplinas – como as de Comunicação e Animação Social ou
Homem e Ambiente – Componente Social – que, pela sua abrangência e
pelo objectivo que implica de formação para a cidadania, poderia
certamente ser leccionada com vantagem por parte de quem tem uma
formação antropológica. A ausência de um grupo disciplinar de
Antropologia, assim como o facto dos antropólogos não terem
habilitações próprias para a leccionação, impossibilita a
inscrição de determinadas perspectivas formativas em disciplinas que,
de uma forma evidente, as requereriam. Uma disciplina de carácter
transdisciplinar, relativa ao mundo contemporâneo teria talvez
vantagens em ser leccionada por licenciados em Antropologia ao invés
de o ser por licenciados em História ou Geografia. Em relação à
disciplina de Desenvolvimento Pessoal e Social trata-se de responder
através dela a um dos objectivos prioritários da educação do 1º ao
12º ano: educar a pessoa e o cidadão, complementando assim a dimensão
de instrução com uma necessária dimensão de socialização e uma
dimensão de personalização. A Lei de Bases do Sistema Educativo
refere-se já a esta disciplina da seguinte forma no seu art.º 47º:
“Os planos curriculares do ensino básico incluirão em todos os
ciclos e de forma adequada uma área de formação pessoal e social, que
pode ter como componentes a educação ecológica, a educação do
consumidor, a educação familiar, a educação sexual, a prevenção de
acidentes, a educação para a saúde, a educação para a
participação nas instituições, serviços cívicos e outros do mesmo
âmbito”. Esta disciplina em alternativa, nosso sistema de ensino, à
de Educação Moral e Religiosa católica ou de outras confissões
(desp. norm. 104/89 de 16-11) será proporcionada pelas escolas à
medida que o sistema possibilitar os docentes com a formação adequada
(desp. norm. 65/ME/91 de 17-5; desp. 25 /ME/95 de 4-4). O carácter
também transdisciplinar e transversal dos conteúdos acima indicados
como a ministrar nesta disciplina, poderia ter como perfil adequado uma
formação de base antropológica[15].
Mais uma vez não temos a certeza de que será assim. Quanto
à restruturação dos conteúdos disciplinares que a reforma
produziu, se nos centrarmos nas disciplinas de História e Geografia
podemos ver como elas incorporaram preocupações antropológicas nos
seus conteúdos, prescindindo-se assim da Antropologia em favor de uma
História e uma Geografia que se antropologizaram. Começando
pelo 2º ciclo do ensino básico, surge uma nova disciplina que
substitui os Estudos Sociais (disciplina para a qual os licenciados em
Antropologia tinham habilitações próprias) no 5º ano e a História
de Portugal no 6º ano: trata-se da disciplina de História e Geografia
de Portugal. Esta disciplina dá uma grande importância à história de
Portugal, tendo certamente em conta que ainda há uma percentagem de
alunos que saem do sistema antes da escolaridade obrigatória (9 anos
lectivos). No entanto privilegia-se uma história de Portugal que
acentua momentos em que o país se relaciona com outros espaços e
outros povos: os romanos e muçulmanos na Península; a independência
face a Castela; Portugal e a Índia; Portugal e o Brasil. Face à
contemporaneidade, refere-se a República, a Ditadura e a Democracia
como grandes momentos e termina-se o programa no 6º ano com um “Portugal
Hoje” que é mais uma monografia sócio-antropológica que
histórico-geográfica:
No
3º ciclo do ensino básico, temos já duas disciplinas separadas mas
ambas viradas para as mesmas preocupações de abertura antropológica.
A História do 3º ciclo é uma história do mundo ocidental que, depois
de um intróito sobre as sociedades recolectoras e as primeiras
sociedades produtoras, acaba focalizando-se, primeiro no conceito de
Mediterrâneo, depois no conceito de Europa e, finalmente, no conceito
de Mundo. Trata-se de uma disciplina trienal em que, de certo modo,
perpassa um programa hegeliano: o 7º ano acaba no Sec. XV com o fim da
Europa-em-si ou a Europa como mundo mediterrânico; o 8º ano vem até
ao Sec. XIX e é uma espécie de Europa-fora-de-si ou a Europa que se
espalha pelo mundo, e no 9º ano chegamos à actualidade do mundo, que
não é senão uma espécie de Europa-para-si. A Geografia do 3º
ciclo é apenas leccionada no 7º e no 9º anos de escolaridade. Nestes
dois programas a região mediterrânica é sacrificada em favor das duas
grandes regiões geográficas em que parece vivermos: a Europa –
leccionada no 7º ano, e o Mundo – leccionado no 9º ano. A abertura
antropológica que se deu no 3º ciclo é ainda mais visível se
compararmos os programas prévios à reforma com estes que se lhe
seguiram. Se, no caso da História, parece ter havido tão só uma
sedimentação ideológica de um programa que já seguia a mesma ideia
de base mas não de forma tão evidente, já no programa de Geografia a
mudança é evidente, pois a uma geografia de Portugal focalizada nos
aspectos físicos do clima e relevo (com diminuta pertinência
ideológica portanto) passou-se para uma geografia europeia e mundial,
focalizada em aspectos sociais e culturais e com elevado cunho
ideológico. A
facilidade com a qual podemos analisar nos programas as regiões
culturais em que Portugal – de uma forma muito pouco problematizada
– se insere, não ocorre como uma projecção nossa. Estas regiões
culturais são mesmo a base segundo a qual se articulam os programas de
Geografia e História do 3º ciclo. Passa-se assim ao aluno a
existência de 3 grandes regiões culturais, o Mediterrâneo, a Europa e
o Mundo, projectadas do presente e sem grande problematização
antropológica. Trata-se mais uma vez de uma ideologia antropológica
mistificadora, utilizada de uma forma tanto mais fácil e dogmática
quanto não é veiculada por antropólogos que a poderiam pôr em causa,
problematizando-a como construção que do presente projecta um passado.
Cada regime inscreve, no aparelho ideológico escolar do Estado, a sua
ideologia, sempre na exclusão daqueles que poderiam dizer da nudez do
rei! Finalmente,
no que respeita ao ensino secundário, os programas de História da
disciplina trienal (10º/11º/12º anos) revelam bem o carácter de
abertura antropológica que se efectivou. Enquanto que nos programas que
antecediam a reforma, os conteúdos se centravam completamente no
contexto português, os actuais programas iniciam-se com o Mediterrâneo
como região cultural que enquadra as civilizações grega e romana,
passando-se depois para uma perspectiva europeia e eurocêntrica (em que
a história dos contactos entre povos é vista completamente segundo a
história europeia desses contactos) da história. O programa termina
com a ideia de mundo e de presente, repetindo-se acentuadamente numa
história contemporânea que já não encontra fronteiras definidas com
a Sociologia e a Antropologia. Esta mesma abertura antropológica
pode-se constatar no programa de História do ensino secundário
recorrente. Quanto ao programa de Geografia do 10º/11º anos já não
se pode dizer o mesmo com toda a propriedade. Trata-se de facto de um
programa em que Portugal tem o lugar principal e só no último de 4
pontos do programa se pode evidenciar a abertura antropológica que
reafirma as duas grandes regiões já referidas: “Portugal nos
espaços europeu e mundial: relações a intensificar”. O
que de facto nos mostra esta reforma curricular é que as diversas
ciências adoptaram perspectivas antropologizantes e que, essa mesma
tendência passou para o contexto escolar e para os seus espaços
curriculares – ainda que de uma forma ideológica – à custa do
sacrifício da própria Antropologia nesses mesmos espaços. Se é verdade
que todos temos a ganhar com uma História e uma Geografia de carácter
antropológico, já não nos parece correcto que tal antropologização se
dê com a exclusão dos antropólogos. Com isto queremos dizer que, para
além dos critérios de tradição e de poder dos grupos disciplinares
instituídos, não vemos razão para a ausência de licenciados em
Antropologia no ensino, quando toda a reforma curricular parece assumir um
carácter de abertura antropológica [16].
Se, para além destas, outra razão há que seja pertinente, parece-nos
ser o facto desta aparente abertura antropológica ser uma ideologia
educacional de regime que propõe o Mediterrâneo, a Europa e o Mundo como
recentramento sociocultural de Portugal, em substituição de Deus ,
Pátria e Família [17].
E, claro, uma ideologia de regime só pode ser levada a cabo na exclusão
dos que a possam problematizar. 2-As
novas figuras educativas: o lugar do Antropólogo de escola
Para
além da reforma curricular e, talvez, mais importante que essa reforma,
foi a criação de novas figuras educativas. As novas figuras educativas
que consideramos são, primeiro que tudo, o Projecto Educativo da
escola, em segundo lugar a figura da Área-Escola e, finalmente, a
figura das Actividades de Complemento Curricular. Estas duas últimas
figuras, uma curricular não disciplinar e a outra não-curricular devem
articular-se com as áreas curriculares disciplinares e encontrar uma
harmonização coerente no Projecto Educativo de cada escola. Quanto
à figura do Projecto Educativo da escola, a mais abrangente das novas
figuras, é criada pelo Decreto-Lei 43/89 de 3 de Fevereiro, sendo
certamente uma das iniciativas legislativas mais importantes no âmbito
da Reforma pois pelo Projecto Educativo traduz-se a própria autonomia
da escola. O Projecto Educativo (criado para o 2º e 3º ciclos assim
como para o ensino secundário) pretende-se assim o instrumento
primordial de identidade da própria escola. No artigo 2º do referido DL
refere-se que se entende “por autonomia da escola a capacidade de
elaboração e realização de um Projecto Educativo em benefício dos
alunos e com a participação de todos os intervenientes no processo
educativo”. Afirma-se ainda que o Projecto Educativo se deve
corporizar em planos anuais de actividades e em regulamentos internos de
diversos sectores em que se possam reflectir as prioridades de
desenvolvimento pedagógico da escola. Tendo
em conta a nossa linha argumentativa de elucidação de uma ideologia
antropológica na ausência dos antropólogos, relevamos aqui apenas a
autonomia cultural das escolas. Esta surge-nos referida ao longo de 4
artigos daquele DL, sendo definida como capacidade de empreender
acções de extensão educativa, difusão cultural e animação
sócio-comunitária por iniciativa própria ou em colaboração com as
demais entidades locais. O Projecto Educativo deve assim ser um
instrumento de autonomia, mas também de mobilização e de inovação:
a escola deve criar e desenvolver através dele as condições da sua
autonomia cultural, pedagógica e administrativa mas na mobilização
de toda a comunidade em torno de objectivos comuns. Evidencia-se em
seguida o que se entende por cada uma das actividades referidas que se
propõem na realização da autonomia cultural da escola, para se poder
avaliar do espírito do legislador que é o de transformar a escola num
centro cultural da comunidade. As
actividades de extensão educativa (art.º 5º) incluem: a) promover e
apoiar actividades de educação de adultos; b) participar em
actividades de aperfeiçoamento profissional; c) criar condições
para a valorização das artes e dos ofícios tradicionais. Quanto às
actividades de difusão cultural (art.º 6º), incluem: a) promover
exposições, conferências, debates e seminários; b) promover
realizações e iniciativas de apoio aos valores culturais locais,
participando na defesa do património local; c)incrementar a
divulgação do artesanato e o intercâmbio de outras manifestações
culturais; d)promover actividades de animação musical e de expressão
artística. Quanto às actividades de animação sócio-educativa (art.º
7º) incluem: a) promover encontros entre gerações com
características diferentes; b) apoiar actividades organizadas por
grupos de jovens; c) facilitar a integração de imigrantes, d)
colaborar em iniciativas de solidariedade social. Não
é preciso fazermos grandes avaliações para depressa se perceber que
esta abertura antropológica desejada deparou com inúmeras
resistências. Se há escolas que assimilaram a ideia de um programa
identitário em que o diálogo entre a escola e a comunidade
envolvente se reflecte, escolas há que não têm senão um simulacro
de Projecto Educativo ou que o reduziram a um conjunto de actividades
mais ou menos inócuas que se repetem anualmente sem grande compromisso
por parte da escola e dos professores que, por vezes, nem sequer sabem
qual é o Projecto Educativo da sua escola. Para além disso, as escolas
que têm actividades (sendo por vezes difícil avaliar as actividades de
facto e as actividades no papel) não podem, apenas por isso, ser
consideradas bons exemplos: por um lado, muitas vezes, a existência
dessas actividades depende directamente da “carolice” e do
empenhamento louvável – de uma estratégia paradigmática (Seixas
1997) – de alguns excelentes profissionais que as nossas escolas têm,
desaparecendo a actividade mal ele muda de escola (muitas vezes devido
ao nosso deplorável sistema de colocações); por outro lado a
existência dessas actividades resulta por vezes de um oportunismo –
de uma estratégia pragmática (idem 1997) – de outro tipo de
profissionais que as nossas escolas também têm e que apresentam
actividades no sentido de acederem o mais possível a todas as benesses
– especificamente redução de horário – que o sistema lhes pode
conceder. Poderão dizer que os motivos pelos quais se fazem as
actividades não são importantes mas sim o facto delas existirem, mas
então tememos ter que aceitar o oportunismo como princípio educativo! Perguntamo-nos:
a autonomia cultural da escola, a que o Projecto Educativo tanta
relevância dá, deve estar dependente da distribuição do pragmatismo
e do paradigmatismo docente pelas escolas?[18]
Como se cria então uma cultura de escola e uma cultura de Comunidade
Educativa sem uma gestão específica de interacção cultural que
encontra na escola um palco privilegiado? Procura-se cada vez mais ter
um Psicólogo nas escolas, o que é de todo correcto. Mas serão mais
importantes as patologias do que as utopias? Não deverá haver também
um lugar para os que, procurando dar à autonomia cultural da escola o
seu verdadeiro espírito legislativo, criem verdadeiras Comunidades
Educativas no diálogo das diferentes culturas que estas incluem e na
procura de uma intervenção que tenha verdadeiro valor? Não terá aqui
o Antropólogo um lugar como intermediário que procura “encontar
dispositivos mediadores entre o saber cultural e o saber escolar:
dispositivos que visam, acima de tudo, promover entre educadores e
comunidades de origem dos alunos uma atitude não etnocêntrica face aos
saberes que em ambos se transmitem/ adquirem.”? (Iturra, 1996:7) Atentemos
agora em duas figuras nas quais melhor se concebe que a autonomia
cultural da escola se espelhe: a Área-Escola e as Actividades de
Complemento Curricular. A
figura educativa da Área-Escola é criada pelo Decreto-Lei 286/89,
sendo definida como uma “área curricular não disciplinar”. O Plano
de Concretização da Área-Escola surge-nos no Anexo I ao Desp.
142/ME/90, sendo então definida esta figura como uma área curricular
de natureza interdisciplinar e de frequência obrigatória, cujo âmbito
abrange todos os níveis e ciclos dos ensinos básicos e secundário. O
2º artigo do Plano de Concretização, pela descrição das finalidades
da Área-Escola, envia-nos já para esse carácter de abertura
antropológica tal como a definimos. Assim, a Área-Escola deve, antes de
mais, ser o locus de integração de saberes, no sentido de uma
interdisciplinaridade activa (al. a) que englobe os contributos das
principais revoluções educacionais deste século, a saber, a
Educação Permanente (al. b), a Educação comunitária (al. c & d) e
a educação pela “escola paralela” (al. e)). Para além disso, o
legislador aponta-nos uma necessária intercessão teórico-prática (al.
f) e ainda um pendor quer para a formação para a pessoa (al. g)), quer
para a formação social ou cívica (al. h & i)). O espírito do
legislador parece ter sido o de criar uma figura educativa que se
constituísse como locus de confluência em que o diálogo entre os
diversos espaços-tempo educativos se estabelecesse em autonomia segundo
as características de cada Comunidade Educativa, na perspectiva de uma
escola aberta e prospectiva e de um novo profissional, autónomo, inovador
e reflexivo. Esta figura legislativa centrada numa pedagogia de e pelo
projecto tem, como consequência disso, um cariz estratégico e de
negociação propondo a Área-Escola como o lugar de uma transformação
pessoal, de uma mudança institucional e até de mudança da própria
comunidade envolvente. Este novo locus educativo implica uma
auto-formação, uma formação participada e uma formação em
cooperação com outras instituições da comunidade educativa numa
perspectiva de formação-acção e de formação-investigação. A
Área-Escola surge assim como uma espécie de figura utópica de uma
escola do futuro, com um currículo liberto do constrangimento disciplinar
e com um processo de ensino-aprendizagem liberto do constrangimento da
sala de aula e da comunicação linear professor aluno. A abertura
antropológica que esta figura possibilitava constituía-se como uma
grande oportunidade educativa. No
entanto, este espírito de abertura antropológica da educação que
se pode ler nesta figura educativa sofreu diversas resistências: uma
cultura educativa que é tanto mais disciplinar quanto mais se progride
nos graus de ensino; uma cultura educativa feita de individualismos e de
dependências; uma cultura educativa feita de cliques etárias,
disciplinares e de categorias profissionais; uma cultura educativa feita
de várias e diversas culturas de escola; uma cultura educativa que reflecte,
por atraso no ensino, as “duas culturas” científicas
relativamente exclusivas de Snow (1996); etc. A Área-Escola foi assim
acomodada aos constrangimentos diversos da nossa cultura educativa
tradicional ao invés de ser o lugar da inovação que se impunha
assimilar. A Área-Escola foi muitas vezes acomodada como mais uma
directiva ministerial a cumprir, sendo a autonomia e a inovação,
assim como a pedagogia de projecto folclorizadas nos seus princípios. A
transversalidade interdisciplinar que a legislação atribui à figura
foi gerida quantas vezes consoante os interesses dos orgãos de gestão
da escola, consoante as cliques profissionais aí existentes, etc. E, à
medida que se ascendia nos graus de ensino mais se notavam as
acomodações negativas da figura, chegando-se mesmo ao ponto de haver
escolas que simplesmente dela abdicaram no ensino secundário. Perguntamo-nos:
não faltou aqui a figura de um facilitador, um orientador, um
coordenador que tivesse a incumbência de, gerindo as diversas culturas
educativas da escola e da comunidade, criar um verdadeiro espaço de
diálogo cultural entre professores e alunos, entre conteúdos e áreas
disciplinares, entre a escola e a comunidade para a existência da
Área-Escola com real valor? Uma
outra nova figura é a das actividades de complemento curricular,
regulamentadas pelo desp. nº141/ME/1990 de 1 de Setembro. Estas
actividades – derivando na prática na constituição dos chamados “clubes”
– definem-se como “um conjunto de actividades não curriculares que
se desenvolvem, predominantemente, para além do tempo lectivo dos
alunos e que são de frequência facultativa” (art.º 1º). Este tipo
de actividades procura concretizar o que o art.º 48 da Lei de Bases
consigna em termos do desenvolvimento de componentes locais, regionais e
nacionais do currículo orientados para o enriquecimento cultural e
cívico, a educação física e desportiva, a educação artística e a
inserção dos educandos na comunidade. Os novos planos curriculares dos
ensinos básicos e secundário (DL 286/89 de 29-8) reafirmam a
importância destas actividades no art.º 8º: “os estabelecimentos de
ensino organizarão actividades de complemento curricular, de
carácter facultativo e natureza eminentemente lúdicas e cultural,
visando a utilização criativa e formativa dos tempos livres dos
educandos.” O
desp. 141/ME/90 afirma de uma forma indubitável “o papel da escola
como pólo privilegiado de desenvolvimento local, como espaço aberto e
de integração com a comunidade envolvente”. As actividades de
complemento curricular devem constituir-se, assim, “como uma das
expressões mais ricas da autonomia cultural da escola, manifestada
designadamente no reconhecimento e promoção dos valores e patrimónios
culturais da região, no encontro das gerações e na integração
social e comunitária de todos os indivíduos.” Os projectos de cada
grupo devem constituir um todo integrado num “programa”,
harmonizando-se com as actividades curriculares e com a Área-Escola,
enfim com todo o Projecto Educativo da escola e com a comunidade
envolvente. Não se trata, assim, de um conjunto de actividades
extra-curriculares, surgidas anarquicamente de um impulso imediatista de
um qualquer grupo de alunos, mas sim de actividades de natureza
pedagógica que visam a utilização criativa e formativa dos tempos
livres dos alunos (através de projectos desportivos, artísticos,
tecnológicos, de solidariedade, etc.) com objectivos de formação
pluridimensional, de ligação escola-meio e no âmbito de uma dimensão
europeia da educação que podem ser levadas a cabo por uma escola ou
por um conjunto de escolas. Prepararão os cursos de ensino
suficientemente os nossos actuais professores para este ambicioso
projecto? Também
no que respeita a esta nova figura educativa podemos repetir o que já
acentuámos para as outras duas: a prática concreta das escolas fica
aquém muitas das vezes do projecto de abertura antropológica que a
figura legislativa consagra. Há escolas que têm clubes, até vários,
enquanto outras há que não têm nenhum! A figura é tão pouco
importante que se possa deixar que a sua existência dependa do
aleatório? Deve a autonomia cultural das escolas ter como resultado uma
completa disparidade de desenvolvimento cultural das mesmas? Mais
uma vez podemos perguntar-nos: não se trata aqui de gerir culturas,
não se trata aqui de coordenar uma diversidade de projectos culturais e
de os incluir em projectos socioculturais mais amplos? E quem numa
escola se encontra adstrito a tal função? Não será este um lugar
adequado a um antropólogo de escola? Prospectivas
Que
o licenciado em antropologia venha a ter um lugar de professor cujas
perspectivas antropológicas em que foi formado se evidenciem, que
venha a ter um lugar de antropólogo de escola ou ainda, que seja
interventor nos TEIP (Territórios Educativos de Intervenção
Prioritária) como propõe Iturra (1996), o importante é que a
Antropologia se encontre com o Ensino e este na sua abertura
antropológica, encontre lugar para os antropólogos. Mas,
mais do que promover a criação de um novo cargo no estabelecimento de
ensino, o que nos importa aqui é promover uma reflexão sobre o papel
da Antropologia na nossa sociedade, da sua responsabilidade social como
instrumento de consciencialização de cidadanias. A análise
apresentada de determinados aspectos ligados à Reforma Educativa é
unicamente um estudo de caso através do qual se pretendeu iluminar uma
das várias vertentes desta reflexibilidade que a Antropologia, e os
antropólogos, com urgência, devem fazer. Os
usos sociais da Antropologia podem ser problematizados a vários
níveis. A problematização do uso da Antropologia no ensino, neste
Fórum apresentando-se em relação a Portugal e a Espanha, indicia um
padrão de Educação sem Antropologia que se verifica nos dois países,
abrindo a hipótese da sua existência mesmo para além deles. Estes
dois países apresentam ainda o paradoxo entre a implementação no
ensino de uma ideologia antropologizante (“temas transversais” do
sistema espanhol e as “novas figuras educativas” do sistema
português) e a exclusão dos antropólogos. Até que ponto, na Europa
do presente, este paradoxo não é algo de recorrente? E o que isso nos
diz do ensino na Europa e da própria Europa que queremos construir?
Não será este paradoxo o reflexo de uma das questões mais pertinentes
da Europa do presente que nos coloca entre uma Europa das Culturas e uma
Cultura da Europa?
BIBLIOGRAFIA e fontes Fontes
Primárias
Lei
de Bases dos Sistema Educativo, lei nº46/86 de 14 de Outubro, publicada
no Diário da República, I Série, nº237, de 14 de Outubro de 1986 Modelo
de Apoio à Organização das Actividades de Complemento Curricular, Desp.
141/ME/90 e Anexo de 17 de Agosto, publicado no Diário da República, II
Série de 1 de Setembro de 1990 Plano
de Concretização da Área-Escola, desp. 142/ME/90 e Anexo I de 17 de
Agosto, publicado no Diário da República II Série de 1 de Setembro de
1990 Decreto-Lei
n.º 43/89 de 3 de Fevereiro, publicado no Diário da República I Série
de 3 de Fevereiro de 1989 (Projecto Educativo) Decreto-Lei
n.º 286/89 de 29 de Agosto (Novos Planos Curriculares)
Programas
consultados em edição remetida às escolas pelo Ministério da
Educação:
Programa
de História e Geografia de Portugal (5º e 6º anos) Programa
de História (7º, 8º e 9º anos) Programa
de História (10º, 11º e 12º anos) Programa
de Geografia (7º e 9º anos) Programa
de Geografia (10º e 11º anos) Programa
de Ciências Sociais e Formação Cívica (Ensino recorrente -3º ciclo) Departamento
do Ensino secundário (1996) Curso Técnico de Animação social –
Organização Curricular e Programas das Disciplinas da Componente de
Formação Técnica: Editorial do Ministério da Educação Obras
Impressas
AREIA,
M. L. Rodrigues 1986
“A investigação e o ensino da Antropologia em Portugal após o 25 de
Abril”, Revista Crítica de Ciências Sociais nº18, pp.138-152. AREIA,
M. L. Rodrigues e ROCHA, M. A. Tavares da 1985
“O ensino da antropologia”, Cem anos de Antropologia em Coimbra,
Instituto de Antropologia, Universidade de Coimbra, pp.13-60. Comissão
de Reforma do Sistema Educativo 1987
Da Escola Curricular à Escola Cultural. Lisboa: Ministério da
Educação. ITURRA,
Raul 1996.
“Perfil e Funções que Podem ser Desempenhadas pelo Antropólogo/a no
Quadro dos ‘Territórios Educativos de intervenção Prioritária”,
Boletim APA n.º 10 pp.7-8. MOUTINHO,
M. Canova 1982
“Etnologia Colonial Portuguesa e o Estado Novo”, O Fascismo em
Portugal, Lisboa: A Regra do Jogo, pp.415-442. SEIXAS,
Paulo Castro 1997.
A Carreira dos Professores, Oportunidades, Constrangimentos e
Estratégias. Porto: Universidade Fernando Pessoa. SNOW,
C. P. 1996.
As Duas Culturas. Lisboa: Ed. Presença SOUTA,
L. M. Teixeira 1982
“O Ensino da Antropologia”, Gerontologia, vol. IV, n.º 14, pp.54-59 SOUTA,
L. M. Teixeira 1984
The Academic backgrond of the social studies teachers and their teaching
performance during the inservice trainning. Boston University School of
Education. (Tese de mestrado não publicada).
[1] Veja-se principalmente os diversos trabalhos de Jorge Freitas Branco e de João Leal [2] Antropologia Zoológica considerada como uma introdução geral à Primatologia; Antropologia Etnológica voltada para a caracterização das raças humanas (Areia e Rocha, 1995: 18), numa abordagem característica da época cujo paradigma é a constituição em 1937, sob a batuta de E. Tamagnini, da Sociedade Portuguesa de Estudos Eugénicos [3] Denominado em 1912 de “Curso Livre de Antropologia Criminal” [4] Na introdução ao programa pode ler-se o seguinte: “A)1. Importância para os povos colonizadores do conhecimento exacto da etnografia dos indígenas e suas colónias.” (Areia e Rocha, 1985: 47). O programa está dividido por áreas geográficas – África, Índia, Macau e Timor – para cada uma referenciando questões ligadas aos sistemas de parentesco, sistemas de poder locais, sistemas religiosos, tradições, folklore, linguística e artefactos. [5] As referências aqui apresentadas sobre este período são retiradas de M. Moutinho (1982). Como este nosso artigo não pretende senão apresentar linhas gerais do desenvolvimento histórico da Antropologia em Portugal, para obtenção de informações mais detalhadas e precisas sobre este período da Antropologia portuguesa remete-se para leitura do artigo em questão. [6] Para uma reflexão sobre o estado da Antropologia pós 25 de Abril de 74 e até 84 ver L. Areia (1986) [7] Guia do Estudante, Expresso, 10 de Maio, 1997 [8] As datas referenciadas são as dos Decretos Lei que criaram as licenciaturas. [9] O primeiro grupo disciplinar era constituído pelas seguintes disciplinas: Português, História e Estudos Sociais. [10] O horário consistia em 2 horas por semana, tendo a maioria dos estabelecimentos de Ensino um número reduzido de turmas (entre uma e três). [11] Informação dada em conversa informal em Maio de 1997. [12] Aliás o mesmo tipo de situação ocorria com outras disciplinas introduzidas pela reforma instituída pelo Despacho Normativo 135 – A/79, nomeadamente Iniciação ao Jornalismo e Relações Públicas. Os contactos levados a cabo com docentes do Ensino Secundário na área do Porto indicam que, se inicialmente esses lugares foram preenchidos por pessoas ligadas à área profissional em questão, com o tempo, e devido por vezes a problemas de inserção por parte desses profissionais, essas disciplinas passaram a ser tendencialmente leccionadas por professores da escola. [13] Esta situação impede o acesso destes licenciados à profissionalização e consequentemente à sua efectivação no quadro de qualquer escola. Segundo Souta (1984 ,86) no período entre 1974 e 1984 apenas 10 licenciados em Antropologia conseguiram profissionalizar-se (História profissionalizou 906 licenciados). Desses dez, oito conseguiram-no em 79/80 que foi o primeiro ano em que Antropologia é classificada com o índice 1 nos escalões ministeriais referentes ao tipo de habilitações das várias licenciaturas para efeitos de ordenação no 1º Grupo do Preparatório. [14] A legislação relacionada com estas alterações inicia-se em 1986 com a Lei de Bases do Sistema educativo e vem até início dos anos 90. [15] No Boletim da A.P.A. n.º 10 (Inverno de 1996) refere-se em relação a este assunto: "Quanto à disciplina de Desenvolvimento Pessoal e Social, nos Ensinos Básico e Secundário, deverá ser leccionada por licenciados nas áreas de Ciências Sociais e Humanas, e muito em particular, pelos antropólogos, sociólogos e psicólogos dadas as suas formações específicas." (p. 4) [16]
Recentemente foi enviada ao Ministério da Educação uma proposta de
constituição de um Grupo de Antropologia (Ensino Básico e
Secundário), tendo sido subscrita por todos os departamentos de
Antropologia do país. As disciplinas propostas para leccionação por
parte dos licenciados em Antropologia são as seguintes (Boletim APA n.º
10, 1996): a)
Grupo EB – Antropologia (Disciplinas do Ensino Básico – 2º e 3º
Ciclos – a leccionar): História e Geografia de Portugal (2º
ciclo); O Homem e o Ambiente-componente social (ensino recorrente-2º
ciclo); Comunicação e Animação Social (ensino recorrente-3º
ciclo); Geografia (3º ciclo); Ciências Sociais e Formação Cívica
(ensino recorrente-3º ciclo) b) Grupo ES – Antropologia (Disciplinas do Ensino Secundário a leccionar): Antropologia (propõe-se a reintrodução a curto prazo); Sociologia; Sociologia (Curso Técnico de Animação Social-ensino recorrente); Introdução ao Desenvolvimento Económico e Social; Área Interdisciplinar (ensino recorrente); Psicossociologia (cursos tecnológicos de administração e de animação social); Comunicação e Difusão (cursos tecnológico e técnico – E.R. – de comunicação); Animação Sociocultural (curso técnico de animação social – E.R.) [17] Acerca desta hipótese de tríade substituta muito haveria a descobrir e a problematizar. Um dos aspectos pertinentes parece ser o das próprias definições programaticamente inscritas de Mediterrâneo, de Europa e de Mundo. Há um projecto implícito nessas mesmas definições que se relaciona com o próprio projecto político nacional e transnacional. Outro aspecto importante parece ser o da situação atlântica de Portugal e uma certa ausência de pertinência programática da mesma no presente face à que, já teve no Estado Novo. [18] Sabemos ser essa distribuição condicionada por contextos e factores locais, acentuando-se por isso muitas vezes as assimetrias educacionais no país. Por exemplo, há escolas do interior mal queridas em que a rotatividade dos professores quase que impede qualquer Projecto Educativo. |